sexta-feira, 16 de junho de 2017

Ritual Gambrinus

Tem 81 anos e uma vida repleta de histórias, umas para contar, abertamente, outras para serem segredadas. Octogenário no papel, sempre jovem na sua essência e um arraso de charme. Poderíamos estar a escrever sobre uma pessoa, até por não nos faltarem referências familiares que vão ao encontro, na exactidão, destes dados, mas, não, a abordagem é feita a um espaço de restauração. Aos mais experimentados, bastar-lhes-ia olhar para a fotografia anexada para desvendar o enigma, mas aguardem mais um pouco e permitam-nos deixar aqui alguns dos aromas que mais nos tentam. Parece ser uma tendência a abertura de espaços com a temática centralizada no café, mas a maioria "apenas" tenta reproduzir o ambiente e as especialidades das coffee houses de outras paragens. O apenas está, naturalmente, entre aspas, pois quem arrisca e se atreve a lançar um negócio merece louvor e faça-se a devida ressalva às excepções que tentam fazer algo mais do que importações gratuitas. Os clientes locais parecerem apreciar o conceito e as casas vão-se mantendo abertas, por isso há negócio, mas, na nossa modesta opinião e tendo em conta que os turistas estrangeiros nos estão a invadir estes espaços poderiam tentar misturar no conceito alguma da identidade nacional em relação ao café. Se são apreciadores desta bebida e acham que ir buscá-la num copo de plástico é entusiasmante, então, experimentem tomar um café vindo de uma máquina de balão, mas façam por participar em todo o ritual de preparação. Para se alcançar toda a potencialidade do café convém, primeiramente, ir comprá-lo, em grão, a uma loja tradicional para o efeito. Por exemplo, na cidade do Porto, na renovada mercearia fina Pretinho do Japão, pode-se adquirir o grão e pedir para que se faça a moagem na hora da compra. Devidamente aconselhados, em relação à intensidade mais ao gosto do cliente, pode levar-se ainda de brinde o espectáculo cénico da utilização dos moinhos antigos e a viagem nas memórias, proporcionada por estímulos visuais, auditivos e olfactivos. O ritual atinge o seu epílogo já em frente à máquina de balão: coloca-se o café no globo de cima, a água no de baixo e acende-se a lamparina, de modo a que levante fervura. Nesse momento, a água subirá e misturar-se-á com o café, devendo a bebida ser mexida, ligeiramente e a lamparina apagada. Esta será a melhor forma de terminar um jantar caseiro e surpreender os seus convidados com um método de fazer café que fez tradição em Portugal.


Máquina de Balão Schott Mainz 

O restaurante Gambrinus, em Lisboa, merece todo o destaque sempre que se falar ou escrever sobre fazer café por métodos mais envolventes comparando-os com o banal uso de uma pastilha. Estoicamente, o emblemático Gambrinus foi sempre resistindo à tentação de ir na onda de outros espaços e manteve o café feito em máquina de balão, transformando-o em imagem de marca. À barra ou à mesa, a horas convencionais ou pela noite dentro, o cliente fica envolvido pela arte e traços da vida portuguesa do antigamente, alinhadas pela mão do Arquitecto Maurício de Vasconcelos, mas também pelo aroma e imagens proporcionadas pela elaboração do famoso café. 

Sem comentários:

Enviar um comentário