sábado, 22 de julho de 2017

Eis o seu pó de arroz


"Pó de Arroz 
Não faz nenhum mal
É de arroz integral
Infernal, quando chegas com
Todo o teu arroz"


É inevitável, sempre que se fala em pó de arroz vêm logo à cabeça algumas passagens da canção, intemporal, de letra simples, mas com uma pitada de malícia a qual não resistimos cantarolar. Foi tal e qual o que nos aconteceu ao nos depararmos com uma publicidade antiga ao pó de arroz Tokalon Fascination. Passado o momento karaoke, fomos engolidos pelo interesse suscitado na peça, tanto ao nível da ilustração como da parte textual, sendo que, antes de tudo, tivemos de a apanhar do chão. Pois é, o que para uns é lixo para outros é luxo e esta folha estava caída no chão de uma banca, numa feira, muito próxima de ir parar à papeleira mais próxima, mas quis o destino dar-lhe mais uma oportunidade para brilhar. 


Tokalon Fascination (1952)

Salta logo à vista a fantástica imagem, a fazer jus ao registo ilustrado muito utilizado nos saudosos anos cinquenta do século passado. O glamour, sofisticação e bom trato presentes na figura feminina são evidentes e estas são valências às quais a marca se pretende associar. Pretende, o tempo verbal é o correcto, pois a marca ainda existe e as pretensões são as mesmas. A Tokalon é uma marca helvética de cosméticos que existe desde 1907, estando presente no mercado nacional a partir de 1948 por via da firma portuguesa Jalber, Ltda., na altura sediada na Rua Gomes Freire, 96, em Lisboa. Era para esta morada que o anúncio solicitava às clientes o envio dos pedidos de amostras, na quantidade de seis, de modo a que as senhoras pudessem escolher a cor mais adequada a cada tipo de "carnação". Afinadas por um "cromoscópio", permitiam que "Vós próprias, diante dum espelho, podereis verificar qual a cor que mais vos convém, aquela que vos fará parecer mais jovens, mais frescas e verdadeiramente bonitas." Uau! À primeira oportunidade, esta marca, respectiva empresa distribuidora e os seus produtos serão tema de conversa com as pessoas mais "experientes" que temos o prazer de ter ao redor.  Fica a dica, este parece-nos ser um dos exercícios mais interessantes que se podem ter a propósito da recriação vintage.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Michel - Permanece mais tempo

A Michel foi uma das grandes marcas internacionais a marcarem presença em território nacional, nos saudosos anos cinquenta do século passado. Com os seus "misteriosos e fascinantes" produtos a marca australiana teve lojas em Lisboa, na Rua Alves Correia, 37, 2º e no Porto, na Rua do Padrão, 20. A representação e distribuição esteve assegurada pela firma F. Lima & Cª Sucr., com primeira sede instituída no Porto e um nome responsável por representar e distribuir em tempos, no nosso país, produtos tão díspares como seriam os da Gillette (Lâminas e pincéis de barbear), da Johnson & Johnson (produtos de higiene para bebé) ou da Royal (pneus), entre muitos outros. Não podemos deixar passar esta oportunidade para felicitar a F. Lima, pois esta empresa completa este ano os seus 100 anos de existência. É muita obra feita, por isso aqui ficam os nossos parabéns e o desejo que o futuro continue assim, com uma plasticidade notável no mundo dos negócios e uma visão orientada para o futuro. 


A Michel "republicitada" pelos autores do blogue

Não é muita a informação disponível acerca da Michel como organização, mas esta marca tem peso e legado na publicidade dita vintage. A que apresentamos "replublicitada" marcou presença numa revista portuguesa, em 1952, mas, se procurarem nos motores de busca, há muitas mais disponíveis para deleite. Fantásticas! Fazemos ainda questão de transcrever a descrição feita dos batons Michel no anúncio. Descrição, não, poesia para os apreciadores:

"Também os seus lábios encerram um mistério... exprimem uma promessa sem palavras que, no entanto, será ouvida e respondida por alguém, nalguma parte, nalgum tempo. Embelezados com a tonalidade Michel, eles revelarão como nunca fizeram, as suas curvas e contornos fascinantes... todas as admiráveis subtilezas duma expressão mutável. Use sempre Michel... o seu perfume é exclusivo... as suas cores rigorosamente da moda... e Michel permanece mais tempo."

terça-feira, 11 de julho de 2017

Casa Pereira

Tendo em conta a especialização da Casa Pereira em Caça e Pesca o desafio primordial para este texto é não cedermos à tentação de fazermos pontes para as falcatruas com armas na ordem do dia e que, infelizmente, já se tornaram banais em Portugal. Afortunadamente, esta casa, fundada em 1904, no Porto, era também local de romaria para a compra de outros produtos, tais como talheres, utensílios de cozinha e mesa, cutelarias, oleados, balanças, facas de cozinha de fino corte, etc, o que nos permite fazer a abordagem mais de acordo com uns verdadeiros objectores de consciência. Os portuenses, de algumas posses, quando queriam equipar uma casa com os apetrechos fundamentais para nela viverem era à Casa Pereira que recorriam, garantidamente, pois, por lá, encontravam de tudo. Dos arredores da invicta também vinham clientes, chegavam à Estação Ferroviária do Porto - S. Bento, de comboio e depois faziam uma pequena caminhada até à loja, ali mesmo ao lado da porta principal do teatro. O negócio foi próspero no Nº 96 da Rua Sá da Bandeira e a aposta em publicidade foi grande, por isso é comum encontrarem-se peças antigas, algumas verdadeiras relíquias e demonstrativas da qualidade do que historicamente se faz em Portugal ao nível da comunicação.


Republicitar a Casa Pereira

A força da expressão, encontrar de tudo, de facto, faz todo o sentido, pois a Casa Pereira vendia também todo o tipo de equipamento para a prática do desporto. O destaque vai para a venda de patins para os praticantes de hóquei, o que era publicitado, nos anos sessenta, como sendo de grande relevância, com certeza, pelo maior interesse que a modalidade suscitaria na sociedade, isto em relação aos dia de hoje. 


Anúncio presente num livro de culinária (1964)

Fazendo jus ao propósito do livro de culinária publicitário da Casa Pereira, a partilha de receitas aliada à divulgação de marcas e negócios, cá fica uma antiga e muito simples receita para as "Bolachas Can-Can", anexada ao anúncio partilhado em fotografia:

250 grs. de manteiga

380 grs. de farinha de trigo

100 grs. de açúcar

sal q.b.

açúcar cristalizado

Peneire a farinha, o açúcar e o sal e junte a esses ingredientes a manteiga. Abra a massa bem fina e corte as bolachas bem pequenas. Leve ao forno em tabuleiros e depois de cozidas passe-as no açúcar cristalizado. Guarde em latas bem fechadas para que não amoleçam. 

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Ensino Primário

Muitos de nós até tremem quando se deparam com alguma informação relacionada com o ensino primário. Uns pelas memórias da professora austera, que fazia uso da palmatória - sim, em algumas escolas havia professores que davam reguadas à mínima insubordinação - outros pela separação de sexos - meninas para um lado; meninos para o outro, pois é. Claro, quando se quer perceber diferenças acentuadas no ensino primário, em relação aos dias de hoje, tem de se recuar até antes de 1974 e isto poderá mexer com algumas susceptibilidades, por isso passemos ao lado das questões mais inflamáveis, deixando esta parte para discussão nos murais de perfis do Facebook que se dão a essa tarefa e isto já basta na contribuição do fervilhar nacional, pois não são poucos. 


A nós importa-nos realçar aspectos tão simples como a qualidade dos trabalhos gráficos presente nos vários documentos com que nos vamos deparando: é ou não é lindíssimo o diploma apresentado em fotografia?! Antigamente era necessário fazer um exame no final da frequência da quarta classe e só os mais abastados seguiam para o liceu. Quem tinha menos posses tinha de enveredar pela via profissionalizante, caso fosse da classe média, estando numa condição mais baixa a aprendizagem de uma arte seria o destino mais provável. A linhagem gráfica utilizada no meio do ensino continua a cativar muitos dos que se interessam pelo passado do nosso país, estando os livros escolares, cartazes, cadernos, lousas, carteiras, pastas e fotografias no topo das escolhas para colecção. Na cidade do Porto, a Associação de Jardins Escolas João de Deus dá continuidade ao método de ensino já proclamado nos anos setenta, do século XIX, nos jornais da invicta, como "excelente methodo"; pelo qual se aprende a ler em 3 mezes; ensina-se a escrever e contar ao mesmo tempo." Esta particularidade faz com que o interesse por documentos relacionados com o autor da "Cartilha Maternal" ou "Arte de Leitura", João de Deus, seja significativo, daí nos parecer bem enquadrado o caderno de disciplina do colégio neste cenário de ensino. 

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Benamor

Ao pensarmos nas "pharmácias" de antigamente somos, imediatamente, assolados por imagens de senhores sisudos, com barba comprida e de prateleiras com frascos a borbulharem poções mágicas para o tratamento das mais diversas maleitas. Deixando fluir estes pensamentos mais primários, os trechos do filme fotográfico mental começam a ganhar outras cores e cheiros, os quais fazem parte de um imaginário colectivo. É muitas vezes do desconhecimento geral que alguns produtos tiveram a sua origem nas farmácias, enraizados que estão nas rotinas diárias e o Creme Benamor ou Benamôr é um desses casos. Lisboa. 1925. Estes são dados que os novos detentores da marca entenderam como fundamentais para continuarem a ornamentar as icónicas bisnagas metálicas, pois marcam-na no tempo e atribuem-lhe a identidade própria das marcas tradicionais.


Anúncio ao Benamor, 1952 (aqui republicitado pelos autores do blogue)

É certo que o creme Benamor já não se produz na farmácia, como nos seus primórdios, mas continua a sê-lo na fábrica que conseguiu fazer chegar os produtos até aos dias de hoje: a Fábrica Nally. A estratégia para a sobrevivência do negócio passou por fabricar os produtos de terceiros - a Nally foi a responsável pela materialização do primeiro protector solar português, o Bronzaline - mas com a recente entrada de novos sócios tudo se reformulou e a marca recebeu uma injecção, não só de capital, como também de uma nova visão de mercado. A ideia passará por colocar os produtos e marcas próprias que saem da Nally nas grandes casas mundiais da especialidade, mas isto para um nome que já foi o fornecedor oficial da Casa Real Portuguesa (Rainha D. Amélia, 1935) é, na realidade, "apenas" dar seguimento à sua vocação para estar presente entre os melhores dos melhores. 

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Fábrica Paupério

"A sua missão foi sempre a mesma: adoçar a boca dos valonguenses, dos portugueses e dos estrangeiros que, cada vez mais, se rendem aos nossos biscoitos feitos com amor e alguns segredos." (Eduardo Sousa Figueira)

Contar a história de empresas seculares é, na maioria das vezes, também passar em revista um longo álbum de família, repleto de momentos reveladores da dedicação necessária para que um negócio vá sobrevivendo de geração em geração. Desde 1874 que ao nome Paupério é associada a arte de produzir bolachas e biscoitos e também a sabedoria de gerir, com mestria, um negócio nos mais diversos quadrantes políticos e sociais.


"O nome do biscoito é Paupério - desde 1874"

Para quem quiser conhecer, ao detalhe, a história da Paupério recomendamos a leitura do livro acima indicado. É certo que o revivalismo e a adopção de registos vintage tem sido uma tendência na sociedade actual, mas a esta empresa bastou-lhe ser igual a si própria para estar, talvez mais do que nunca, na moda. Isto fica patente nas páginas daquela obra, mas nas instalações da Paupério, em Valongo, tudo pode ser percepcionado ao vivo e da área de produção até à sala da administração o legado, sucessivamente deixado pelas diversas gerações de todos os envolvidos no negócio, atribui uma identidade ímpar ao lugar. 


Numa partilha anterior, já tínhamos recomendado uma visita às instalações da Paupério, mas é com gosto que aqui deixamos, mais uma vez, esta indicação. A morada a seguir é a seguinte: Rua Sousa Paupério, Nº 61 - 71, em Valongo, sendo que é conveniente efectuar uma prévia marcação, via telefone (TLF. 224 227 500), para garantir que a viagem não é feita em vão. 


Uma casa que demonstra gosto em receber quem a visita


Labuta na área de produção

Facilmente se percebe estarmos perante uma empresa em que uma das missões é preservar as suas memórias e recriar os cenários que foram cena de vida dos seus antepassados. Todos aqueles que colaboram com a Paupério estão atentos e sempre que encontram alguma peça de memorabilia em falta na colecção tentam resgatá-la para o lugar devido. Foi isto que aconteceu quando Sara Sousa, sócia e uma das responsáveis pelas lojas e comunicação da empresa valonguense, foi informada de que teríamos em nossa posse uma antiga lata de bolachas e biscoitos que não constava na prateleira de memórias. Após o seu gentil contacto, ficamos também imbuídos da missão e, com enorme gosto, contribuímos para o completar da colecção.

       


A "nossa" lata da "menina com o cão" já está junto das suas congéneres, mas o processo de angariação continua, por isso, se tiverem algum material antigo relacionado com a Paupério e estiverem interessados em chegar ao contacto com Sara Sousa bastará enviarem-lhe uma mensagem de correio electrónico, com a certeza de que serão muito bem recebidos. (sara.sousa@paupeiro.pt)


Uma sala de reuniões carregada de memórias


Curiosidades acerca da Paupério


Diversa memorabilia Paupério

Após um interregno, devido a gestão da programação por parte da RTP, a série Fabrico Nacional voltará a fazer parte dos serões à quinta feira, por isso, em princípio, esta semana irá para o ar o episódio dedicado à Paupério. Será uma boa oportunidade para ficar a saber um pouco mais acerca da empresa onde: "Os tempos passam e as gerações sucedem-se" (Álvaro de Sousa Reis Figueira).

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Lava Mais Branco

Ali para os lados de Port Sunlight, no Reino Unido, está localizado um dos mais valiosos arquivos relativos ao mundo dos negócios. No fundo, trata-se da colecção Unilever, um espólio de dimensões inimagináveis, devidamente organizado, protegido e reconhecido como de importância mundial. As peças guardadas são de diversa tipologia, mas o nosso sublinhado vai para as publicidades antigas e embalagens de produtos recolhidas como valioso património. Por marcação, é possível visitar o espaço e ainda aceder a uma sala de pesquisas e biblioteca, de modo a conseguir satisfazer toda a curiosidade que o universo Unilever naturalmente suscita. 


Republicitar * a OMO 

OMO Lava Mais Branco! Este slogan entrou facilmente na memória colectiva dos portugueses e a associação à marca é imediata. É tudo o que se pretende em publicidade, depois a qualidade e procura pelo produto fazem o resto. Hoje em dia tenta-se transmitir a mensagem com o menor texto possível, mas nem sempre foi assim. O anúncio apresentado saiu no Suplemento da Eva, em 1955 e está "assinado" pela Indústrias Lever Portuguesa, LDA - Sacavém (parceria entre a Unilever e a Jerónimo Martins, quem mais...), sendo que valerá a pena transcrever o texto utilizado:

"Montanhas de espuma para a sua roupa!

Com OMO, a sua roupa é a mais branca do mundo!

Deite OMO na água e agite até obter uma espuma abundante. Mergulhe a roupa suja e verá a água tornar-se instantâneamente escura. Porquê? Porque a sujidade absorvida pela espuma activa do OMO passou do tecido para a água. Veja agora a sua roupa: está radiosamente branca; ela tem brancura OMO!

OMO, o mágico pó AZUL que absorve a sujidade. Nenhuma nódoa, mesmo que seja de gordura, resiste ao OMO. Compare entre a sua roupa lavada com OMO e a lavada com outro produto: OMO lava sempre mais branco!

Use OMO para todas as lavagens. OMO espuma, espuma, espuma, mesmo em água fria!

OMO lava mais branco!"

E o monólogo apresentado?! Uma delícia:

"Eu pensava que o meu avental estava branco, antes de ver o de Maria lavado com OMO!"

As 13 referências ao OMO no anúncio talvez sejam um exagero e provoquem uma ou outra risada, mas a verdade é que a mensagem é bastante incisiva nas propriedades do produto. Quem publicita assim só pode estar bem ciente da qualidade dos seus produtos e a verdade é que o OMO perdura até aos dias de hoje. A imagem da marca viu o registo vintage substituído pela aparência high tech e quem somos nós para questionar a medida, tal o poder da Unilever em todas as áreas de negócio em que está inserida.

* Republicitar é uma técnica de comunicação em desenvolvimento neste blogue. Direccionada a marcas com passado de relevo ao nível da publicidade, consiste na execução de encenações básicas utilizando anúncios antigos originais. O que daqui resulta são fotografias surpreendentemente impactantes e com o propósito de serem disseminadas pelas redes sociais.