segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Livraria Ferreira 1891

Não é todos os dias que nos passa pelas mãos um original guia para conversação de 1891 - Inglez e Portuguez - ainda para mais sendo referente à Livraria Ferreira, ligada que está historicamente às escolhas para as leituras de Fernando Pessoa. Sim, ao que parece, a Livraria Ferreira era um dos abastecedores de livros de Pessoa, nós perguntamos, terá sido este seduzido pela localização da loja na, rodeada de misticismo pela singularidade do nome, Rua Aurea?! E, a propósito do pequeno texto extraído do guia, que agradável é a viagem de Lisboa a Sintra, ao som da artista com o mesmo nome da artéria lisboeta. Não importa o meio de transporte, importa ir...


Bonita capa, em verde esmeralda e com um tipo de letra a condizer 


Irresistível passagem do secular guia para conversação

O exemplar apresentado esta assinado, Maria Beatriz Pinheiro e, a avaliar pelo que está escrito, seria para ser utilizado no "Collegio Inglez do Sagrado Coração de Maria", isto, recorde-se, no ano de 1891. Não é de admirar a identificação, pois o guia é adaptado ao uso dos "Collegios de meninas", mais concretamente, a um ensino particular colegial, com um forte pilar religioso, muito dirigido a descendentes de famílias abastadas. São vários os nomes deste tipo de estabelecimentos de ensino que se foram enraizando em Portugal, sendo que estaremos familiarizados com alguns: Colégio Liverpool, Colégio Luso-Britânico, Colégio do Sardão, Colégio Luso-Francês, etc. Este é um tema que facilmente poderá divergir para questões de abordagem mais densa, por isso e como curiosidade apenas algumas considerações em relação ao Colégio Inglês do Sagrado Coração de Maria, actualmente denominado de Colégio de Nossa Senhora do Rosário. Pertença do Instituto das Religiosas do Sagrado Coração de Maria, em Portugal - Congregação fundada originalmente em 1849, em França - funcionou inicialmente na Rua da Fábrica e depois na Praça Coronel Pacheco, foi doado por Miss Hennessey, uma generosa irlandesa que o entregou às irmãs do instituto, que iniciam a sua acção educativa, no Porto, em 1871. O nome em inglês tem que ver com a hostilidade aos franceses, a proclamação da república, em 1910, impediu que a missão das irmãs continuasse no nosso país, mas a sua resiliência fez com que em 1926 fosse lançada a semente do actual Colégio de Nossa Senhora do Rosário. Estamos em crer que até aqui ficaram bem patentes os níveis de densidade do tema, por isso e antes que se adensem... FIM.

Grande Hotel do Porto

Encontrar um panfleto antigo do Grande Hotel do Porto originou uma faísca no circuito interno da introspecção: "- Espera aí, nós admiramos este hotel, mas ainda não conhecemos o seu interior...". Para os portuenses, residentes na cidade do Porto, é natural que o alojamento esteja fora das hipóteses em aberto para efectivar a visita, mas, era de esperar em tal instituição, o GHP tem uma série de serviços que permitem contornar a posição de simples admiradores locais. 


Um desdobrável que se destacou num monte de papelada


O Miradouro da Serra do Pilar oferece um postal vivo da cidade do Porto 


As remodelações não têm retirado a identidade ao Grande Hotel do Porto

Uma placa reluz, como se de ouro se tratasse, a quem passa na Rua de Santa Catarina e torna inevitável a paragem no número 197. A memória da hospedagem dos Imperadores do Brasil, Dom Pedro II e Dona Teresa Cristina, em 1889, dá as boas vindas aos inúmeros transeuntes que não resistem a entrar no Grande Hotel do Porto para saciarem a curiosidade despoletada por tão importante alusão. Sejamos sinceros, o corredor da entrada e a área de recepção têm a simplicidade como ponto comum, mas talvez seja também por isso que salta à vista o extraordinário brasão da cidade invicta, presente na estrutura destinada aos serviços e que concentra todas as atenções.


Placa alusiva à visita dos Imperadores do Brasil (1889)


A cidade enche de luz quem a visita

Desde a sua inauguração, em 1880, que o Grande Hotel do Porto vê a si associados diversos nomes de notáveis deste país e do mundo. Assim que nos são dadas as saudações e passamos para os corredores interiores do hotel, rapidamente nos apercebemos da veracidade presente na mensagem transmitida pelos responsáveis da unidade. O bom gosto na decoração, o requinte presente nas peças que desta fazem parte e os testemunhos deixados, de forma manuscrita, por nomes sonantes atribuem ao hotel um ambiente repleto de charme. O The Windsor Bar e o Salão das Colunas são espaços onde poderá absorver toda a ambiência criada e isto enquanto exercita a leitura, intercalada por uma bebida ou por dois dedos de conversa.


António Ferro, José Hermano Saraiva, Mafalda Veiga, são mais exemplos da diversidade de ilustres visitas


Nas mesas ou nas paredes a presença de extraordinárias peças

O Brunch de Domingo acaba por ser um excelente pretexto para uma visita ao hotel aqui retratado. Servido no Restaurante D. Pedro II, tem na sua oferta algumas especialidades que prometem não defraudar os aficionados por aquele modelo de refeição. Os ovos Benedict e os mini hambúrgueres ficaram no topo das nossas preferências, mas nós não conseguimos provar de tudo, por isso ainda ficam em aberto muitas possibilidades para que possam dar o vosso veredicto. Não podemos deixar de realçar toda a receptividade à presença de crianças, sendo que estas até aos dois anos não pagam e ainda têm direito a todas as atenções redobradas. 




Uma peça Christofle representada pela Antiga Casa José Alexandre 

Não poderíamos deixar passar a oportunidade para referenciar a Antiga Casa José Alexandre, por via da presença, na sala do restaurante, desta magnífica peça Christofle. Aquele estabelecimento, que um dia as chamas devoraram (Chiado, 1988) e, praticamente, lhe extinguiram o negócio, foi durante décadas o representante daquela exclusiva marca francesa. Outras chancelas fizeram parte do cardápio da casa lisboeta e todas relacionadas com o luxo e o requinte, de modo a fazerem face às solicitações da importante clientela: embaixadas, hotéis, estado, casas de famílias abastadas. Ter a possibilidade de perceber as funcionalidades deste artigo de menage, pela mão de um muito prestável funcionário do hotel, foi, para nós, fechar em beleza uma experiência que muito recomendamos. Na impossibilidade de se deslocar ao lugar poderá aceder à visita virtual disponibilizada no site do GHP: visualizar

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Uma cerveja sempre jovem

A cerveja Marina é passível de ser encontrada na prateleira de um qualquer hipermercado Continente, pois é a sua marca própria daquela bebida. Para quem vibra com ícones portugueses, que fazem parte de uma espécie de imaginação colectiva, a medida dos responsáveis pela recuperação da Marina só pode ser catalogada de genial. Ao mesmo tempo que a SONAE recuperou uma cerveja histórica, transformando-a na sua marca própria de cerveja, sendo, por isso, mais acessível, conseguiu ainda que a Marina fosse produzida pela UNICER, garantindo assim um selo de qualidade. 


Presente e passado da cerveja Marina

Produzida pela Imperial - União Cervejeira Portuguesa SARL - Loulé, pela primeira vez, em finais dos anos sessenta, a cerveja Marina marcou presença nos mercados até aos inícios dos anos oitenta, tendo sido preterida por questões relacionadas com a gestão das marcas. A Imperial viria a ser uma das fábricas que deram origem, através de fusão, à actual UNICER e, também por isso, é muito curioso perceber as "voltas" que a cerveja Marina deu até estar novamente à disposição dos seus (muitos) apreciadores. Uma nota a fechar, trata-se de "Uma cerveja sempre jovem" e isso nota-se no sabor...

Às boas fotografias

O espaço do número 205 ao 207, da Rua Augusta, parece estar destinado a alojar arte nas suas mais diversas derivações. A J.C. Alvarez, Lda. foi uma importante firma lisboeta dedicada à comercialização de material relacionado com a fotografia e o cinema e era lá que grandes nomes destas artes se apetrechavam. Para além disso, era comum a casa disponibilizar as suas montras para que os melhores dos melhores pudessem expor alguns dos seus trabalhos, incentivada e muito bem por concursos lançados pela autarquia. Todos saíam a ganhar, sem esquecer os transeuntes da Rua Augusta que, com estas sinergias, podiam aceder a pequenas, mas fantásticas exposições, como são exemplo as proporcionadas pelas montras temáticas do fotógrafo Artur Pastor: Praia de Sesimbra (1949), Vila e Praia de Albufeira (1950), Paisagens com Neve em Trás-os-Montes (1974).



Anúncios à Rolleiflex, à Zeiss e à Ferrania pertencentes a uma campanha da J.C. Alvarez, Lda.


 Preciosidades retiradas do livro Técnica da Publicidade (1942)

A propósito do anúncio à Rolleiflex, como curiosidade, refira-se que Artur Pastor era também conhecido como o "Domador da Rolleiflex" no meio artístico. Apesar de não ser fotógrafo de uma só marca, escrevamos assim, Artur Pastor era exímio no manuseamento da icónica Rolleiflex e o Portugal genuíno, retratado no seu trabalho, chega aos dias de hoje, talvez com um reconhecimento geral nunca antes demonstrado. O espaço 205 - 207, da Rua Augusta, está hoje preenchido com um badalado restaurante, de nome curioso, o Navegadoors, que nos remete também para uma subtil exaltação de identidade como há muito não era sentida. A avaliar pelos comentários dos clientes, deixados nas redes sociais e na sua grande maioria por parte de estrangeiros, há uma "navegação" a servir muito bem os interesses do país, no momento de proporcionarem a quem nos visita uma experiência turística inesquecível. Naturalmente, também dirigido aos locais, o Navegadoors serve arte em forma de elaboradas bebidas e comidas, acompanhadas por todo um ambiente que promete surpreender mesmo os mais habituados a rebuscadas decorações. Às boas fotografias!

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Sonho de Verão

O que é que a General Motors, mais conhecida do grande público pelas marcas de automóveis, tem a ver com frigoríficos e bebidas frescas?! Tudo! Quando neste verão bebermos uma Coca-Cola, com gelo e a imprescindível rodela de limão, claro, é àqueles senhores que também devemos agradecer, pois foram eles que tiveram o arrojo de pegar num negócio, aparentemente, ruinoso e o levar ao sucesso com o fabrico de frigoríficos domésticos. Até a americana GM incorporar no seu grupo o segmento dos sistemas de refrigeração para alimentos, estes eram caros, ruidosos e exalavam mau cheiro, acompanhados de gases perigosos para a saúde. Durante os anos 20, com a experiência da empresa americana, afinou-se o equipamento, criou-se uma marca, a Frigidaire e ergueu-se um império com ramificações pelo mundo inteiro e uma extensa oferta de produtos inovadores. Sim, fazer gelo já foi uma espécie de "a última Coca-Cola no deserto"!



A Frigidaire republicitada pelos autores do blogue

A General Motors teve uma presença histórica no nosso país com a instalação de uma imponente fábrica, destinada à montagem de automóveis, camiões, motores diesel e frigoríficos. Estes últimos equipamentos são destaque nestas linhas, de modo a contextualizarmos o aparecimento frequente de publicidade antiga portuguesa a promover "o sonho das donas de casa". A presença no mercado nacional destes frigoríficos foi significativa, os portugueses não resistiam a experimentar o pioneirismo, a evolução tecnológica e a assistência da Frigidaire. Muitos ainda terão memória de técnicas alternativas utilizadas antigamente para refrescar as bebidas, por exemplo, colocando as garrafas nas águas frescas das fontes ou poças, mas, sem dúvida, a solução apresentada pelos "camones" tinha tudo para se enraizar e tornar-se indispensável. Há quem ainda tenha frigoríficos antigos Frigidaire, muito em voga nos anos cinquenta e a funcionarem, dada a sua fiabilidade, mas serão poucos aqueles que hoje em dia apostarão no restauro destas peças, digamos que isto só passará pela cabeça de verdadeiros apaixonados pelas antiguidades. Com o passar dos anos, a marca mudou de mãos e agora pertence à Electrolux, estando presente em mercados mais afastados da maioria dos países europeus, mas fica aqui a nossa recordação, no caso particular da publicidade apresentada, de 1952, em que a General Motors nos dizia: "15.000.000 de clientes não se podem ter enganado!" A Frigidaire poderia ser encontrada de norte a sul do país: no Porto, na Invicta Radio LDA., em Coimbra, na Fonseca e Seabra LDA. e em Lisboa, na Diniz M. D'Almeida e quem sabe se um dia o novo detentor da marca não nos provoca a surpresa de a voltar a comercializar mais perto de nós?!

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Férias: não se esqueça da... pasta de dentes!

"É amanhã dia 1 de Agosto", por isso há muitos portugueses que hoje se estão a preparar para entrar de férias e partir para a "praia dourada" onde "se juntam corpos sedosos e quentes". Agosto é o mês, por norma, associado às férias e são muitos aqueles que ainda o escolhem para descansar, sendo que algumas empresas chegam mesmo a fechar durante este período, como é o caso da Couto S.A.. Esta é a actual designação formal da firma, a denunciar contemporaneidade, mas, sim, esta é também a empresa que desde 1932 é responsável pelo fabrico da Pasta Medicinal Couto ou Dentífrica, como passou a ser designada após certas e determinadas imposições. 


Mapa de Portugal fértil em publicidades aos produtos Couto

Com uma ou outra designação, a pasta Couto é sobejamente conhecida entre os portugueses, de várias gerações e os motivos passarão, certamente, pela sua qualidade, mas também pela genialidade presente nas suas publicidades e pela criteriosa distribuição que lhe garantiram um lugar na vitrina dos produtos vintage referência na fase actual de grande adoração generalizada. A Couto S.A. tem apostado na introdução de novos produtos próprios no mercado, como é o caso do Creme Desodorizante Deotak, mas a estratégia nem sempre foi esta e, em tempos, o fabrico e distribuição dos produtos de outras marcas era uma realidade. 


Petróleo Olex 


Creme Depilatório Taky 


Pomada Ala D'Aveiro

Como se percebe nas publicidades apresentadas em fotografia, os Desodorizantes Lyby e o Creme Depilatório Taky juntavam-se ao Petróleo Olex e à Pasta Medicinal como produtos para venda sob a batuta Couto. Um produto que nos suscita bastante curiosidade é a Pomada Ala D'Aveiro e a razão deve-se, naturalmente, à provável ligação com a histórica Farmácia Ala, localizada que está num dos edifícios mais reveladores da Arte Nova em Aveiro.


Anúncio de revista (1952)

A fechar, partilhamos um raro anúncio de imprensa e valioso no sentido em que revela o discurso publicitário utilizado nos anos cinquenta, sem qualquer floreado para tornar menos pesaroso o estado do paciente, como é comum utilizar-se nos dias de hoje. Aproveitamos este artigo, que tanto gozo nos deu preparar, para desejar a todos umas boas férias e nunca é demais lembrar: não se esqueça da... pasta de dentes ;)

quinta-feira, 27 de julho de 2017

EFANOR

Também conhecida como "a fábrica dos carrinhos", a Empresa Fabril do Norte, apesar de já não laborar (1994), ainda ostenta alguns títulos demonstrativos da sua grandiosidade. Para o fabrico dos carrinhos de linhas, a EFANOR chegou a ter à volta de 3000 trabalhadores o que fez desta fábrica o maior empregador do Norte de Portugal nos seus tempos áureos. Aquando da sua constituição, em 1905, foi logo catalogada de pioneira, de inovadora e dotada de arrojo empresarial, tendo visto alguns nomes fortes destas matérias a si associados ao longo da sua história: Delfim Pereira da Costa, Manuel Pinto de Azevedo e... Belmiro de Azevedo.


Algodão para Alinhavar envolvido numa película muito bem "enfeitada"

Esta não é apenas uma curiosidade, a Empresa Fabril do Norte foi onde um dos nomes mais fortes do mundo empresarial português, Belmiro de Azevedo, teve o seu primeiro emprego e, principalmente, foi onde o industrial bebeu muita da sabedoria aplicada posteriormente nos seus projectos. A EFANOR deixou marcas históricas ao disponibilizar para os seus trabalhadores cuidados médicos e assistência continuada ao nível da saúde, ao abrir uma creche para que aqueles tivessem onde deixar os seus filhos, ao construir um bairro para alojamento, entre outras medidas sociais de relevo. Talvez para contrabalançar, a Empresa Fabril do Norte está também associada a uma política de baixos salários e a um apertado sistema de controlo laboral. O certo é que serão poucas as pessoas da Senhora da Hora, em Matosinhos, que não tenham alguma ligação à EFANOR, tendo em conta o impacto da fábrica na região. Felizmente, nos dias que correm, a sensibilidade está à flor da pele para questões relacionadas com o património, por isso é possível aceder a muitos sinais do legado da Empresa Fabril do Norte. Como mera sugestão, numa próxima visita ao Norteshopping dedique algum tempo a observar a maquinaria fabril presente como elemento decorativo do centro comercial, acredite, não sairá defraudado e não deixe de passear pelas áreas exteriores e envolventes ao espaço, pois serão muitas as memórias do património industrial português a saltarem-lhe à vista.